Lusitânia Expresso: e se fosse hoje?

  

 

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No dia em que se assinalam 25 anos passados sobre a viagem do navio Lusitânia Expresso até às águas timorenses, muitos dos participantes da missão reuniram-se no Teatro Thalia, em Lisboa. Mais que recordar o passado da Missão Paz em Timor, o objetivo passou por refletir sobre a sua “herança para o futuro”.

A conferência abriu em ligação direta com Díli, através do Skype. “Há 25 anos não tínhamos estas tecnologias”, recordou o CEO da Forum Estudante, Rui Marques. Durante cerca de 10 minutos, António Sampaio, Rui Correia e Pedro Brinca, salientaram “o carinho e apreço” com que o povo timorense recorda o Lusitânia Expresso. A fechar a ligação, o jornalista António Sampaio deixou ainda uma frase: “daqui Papa, Alpha e Roger: e estas são águas de Timor” – numa referência às ameaças de que foi alvo o Lusitânia Expresso, em 1992.

Durante a sessão de abertura, Rui Marques lembrou que o objetivo para este dia de comemoração não passava exclusivamente pela “evocação do passado”. Antes, explicou, o evento pretende assumir-se como um momento de reflexão sobre “a sua herança para o futuro e quais as causas e desafios que surgem”.
O primeiro painel deste encontro centrou-se, precisamente, nas principais lições deixadas pela viagem até Timor, em 1992, de cerca de 120 estudantes de 23 países. Como tal, para além do testemunho desses estudantes – como a realizadora canadiana Geneviéve Hamilton ou Ana Paula Fernandes – foram ouvidas algumas das personalidades envolvidas nesta missão como o então editor do Jornal Público, Adelino Gomes, e o Presidente da Caixa Geral de Depósitos à data, Emílio Rui Vilar.

Houve ainda espaço para mensagens dos mais altos representantes do Estados Português e Timorense. Numa mensagem vídeo, o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa salientou esta “aventura portuguesa pelo Mundo” que, assegurou, “nunca mais se apagará da história do nosso país”.
Já o Presidente da República de Timor-Leste, Taur Matan Ruak, fez-se representar por Domaciano Gomes – também ele passageiro do Lusitânia Expresso, há 25 anos – que destacou o papel desta ação para a liberdade do povo timorense: “lembrar a Missão Paz em Timor é também lembrar que as grandes causas – as causas justas – nunca estão sozinhas. Por isso, permanecemos juntos. Os valores do Lusitânia continuam vivos, nos nossos corações”.

A perspetiva dos jovens
Os participantes e apoiantes do Lusitânia Expresso abraçaram uma missão, há 25 anos atrás. Mas quais as novas causas para o século XXI? Procurando encontrar algumas linhas orientadoras, tomaram o palco do Thalia vários jovens, representando diferentes instituições: Conselho Nacional de Juventude, SEA – Agência de Empreendedores Sociais, Projeto “Amigos Improváveis”, Campos Ferreira, Sá Carneiro & Associados, Plataforma de Apoio aos Refugiados, Associação Académica de Lisboa, Projeto “O Mundo a Sorrir” e Amnistia Internacional Portugal.

Alguns desafios foram referidos por vários oradores: crescimento demográfico, migrações, integração de refugiados, desigualdades sociais, riscos ambientais ou pressão tecnológica são alguns dos exemplos. A importância de combater “a tendência para a indiferença” ou “sair do ativismo do sofá” foi também uma nota dominante. “Temos de criar empatia – contar histórias”, destacou Susana Gaspar, reforçando: “vou ser uma pessoa diferente depois de ouvir as vossas histórias sobre o Lusitânia Expresso – é necessário começar a olhar para lá dos números”.

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E o jornalismo?
“Será que o Lusitânia Expresso teria muitos likes no Facebook, hoje em dia?” foi uma das questões que surgiu no âmbito do painel seguinte. Moderado pelo jornalista Rui Cardoso Martins, o debate centrou-se nas (muitas) diferenças no panorama informativo e mediático que se registaram nos últimos 25 anos e a forma como essa mudança condiciona o “jornalismo de causas”.

Num tempo marcado pela dispersão de informação e por alguma descrença , foi ainda salientado o papel do jornalismo na luta pela democracia e pelo valor das instituições democráticas. “Estamos num tempo em que não só podemos sonhar em fazer um jornalismo diferente, como devemos sonhar em fazer um jornalismo diferente”, salientou o jornalista do Expresso, Micael Pereira.

O papel dos media, de resto, conforme relembrou Rui Cardoso Martins, fica patente no próprio caso da luta pela independência timorense, tendo em conta “coragem física e a inteligência de Max Stahl”. ”É possível mudar o mundo com um acto destes”, reforçou.

Foi já durante o painel final – que contou com a presença da Embaixadora de Timor-Leste em Portugal, Maria Paixão da Costa, e do ex-Secretário de Estado da Juventude, Nuno Ribeiro da Silva – que a Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Maria Fernanda Rollo, destacou a importância deste evento de comemoração, tendo em conta a preservação da memória histórica. Quanto aos desafios atuais, reforçou, será possível contribuir para um mundo melhor "com outros Lusitânias Expressos e com pessoas que os conduzam".